DevOps, Build com Apache Ant

A partir deste post, vou começar a escrever aqui no blog sobre DevOps. Este é um termo que está ficando cada vez mais popular e basicamente trata da melhor integração entre desenvolvimento, infraestrutura e produção.

Falando um pouco mais sobre DevOps, é engraçado que eu sempre trilhei um caminho DevOps antes de o termo existir/ser conhecido. Eu comecei no mundo de TI trabalhando com redes e servidores GNU/Linux e depois fui migrando para o desenvolvimento. Graças a isso eu consigo me dar bem com ambientes de produção e servidores/serviços em geral.

Outra coisa que sempre busquei fazer foi a automação de tarefas repetitivas no meu dia a dia. Sabe aquele deploy para produção onde é necessário copiar arquivos, renomear diretórios, rodar migrations, etc? Esse tipo de coisa e outras mais.

Para a automação eu sempre recorri ao bom e velho Shell Script. Então nos meus projetos sempre tinha lá alguns scripts para preparar algo. O meu primeiro script desta maneira foi chamado de empacotar_lancamento.sh. Isso lá em 2007 ou 2008.

Depois disso eu conheci o ótimo GNU Make, que ainda uso até hoje. Com o Make eu ganhei a opção de rodar apenas uma parte do script de maneira bem simples:

    make testes
    make empacotar

Sim, eu tenho projetos com o fonte em português :)

Não faz muito tempo eu resolvi evoluir e buscar novas ferramentas para automatizar as tarefas repetitivas dos meus projetos. Uma dessas ferramentas é o Jenkins. E enquanto estudava o Jenkins eu percebi que a maioria da documentação, e literatura em geral, sobre o assunto cita o Apache Ant como ferramenta de automação.

Como eu já tive lá minhas diferenças com o Ant no passado (mais por desconhecimento), eu acabei demorando um pouco para realmente estudar a ferramenta e descobrir o que ela tem para oferecer.

Recentemente eu precisei automatizar o processo de deploy de um projeto e resolvi dar uma chance para o Ant. O que segue é um resumo do que eu fiz e as minhas impressões sobre o processo.

Instalando o Ant

Instalar o Ant foi super fácil. A ferramenta é escrita em Java e está nos repositórios oficiais do Debian, então bastou instalar usando o gerenciador de pacotes:

    aptitude install ant

Depois disso a ferramenta já estava pronta para ser usada via terminal.

Definindo o que será feito

Um passo importante foi definir o que seria feito pelo Ant.

  • Rodar os testes unitários (PHPUnit);
  • Copiar os arquivos do projeto para um diretório para empacotar;
  • Durante a cópia ignorar arquivos de config e cache, ou apagar depois;
  • Renomear o diretório de assets (evitar cache de css, js…);
  • Alterar os arquivos de template para usarem o novo diretório de assets;
  • Fazer o deploy na produção.

Pronto, apenas seis passos. Não são passos complicados para alguém executar e eu levo cerca de 20 minutos para fazer o processo todo.

O problema é que 20 minutos é um tempo muito grande para fazer um deploy. Graças a este tempo enorme eu ficava adiando as entregas, pois o processo pode ser simples, mas é chato. Além de chato, consome tempo, imagina fazer 3 deploys por dia. Já é 1 hora por dia! Acha pouco? Então vamos multiplicar isso… Se você fizer 3 deploys por dia, 5 dias por semana, 25 dias por mês, já são 25 horas usadas para fazer um trabalho repetitivo que poderia ser automatizado. E com 25 horas sobrando dá para desenvolver muita coisa nova no projeto ou mesmo outros projetos.

E olha que eu nem falei da chance de erro humano durante a execução dos passos para a entrega. Fatalmente um dos passos será esquecido ou feito de forma incorreta em algum momento.

O arquivo build.xml

Certo, não faça cara feia agora. O arquivo principal do Ant é o build.xml e, como se pode ver pela extensão, ele é um XML… Arquivos XML não são necessariamente a coisa mais linda e/ou prática deste mundo, não para quem conhece formatos como JSON e YAML. No meu caso, tive que encarar o fato de que teria que trabalhar com XML e tentar tirar proveito disso. No final das contas o formato tem suas vantagens e, se você fizer um bom trabalho, o arquivo fica bem legível e com fácil manutenção.

Bem, a primeira coisa no build.xml é definir o project:

    <project name="myProject" default="build" basedir=".">
        <description>
            My Project's Description
        </description>
    </project>

Com isso eu tenho um projeto e já estou dizendo que a task padrão é a build. Calma que já vamos chegar nas tasks.

O próximo passo foi criar uma propriedade, qué tipo uma variável (ou talvez uma constante). No caso eu queria definir o nome de um diretório onde a construção do projeto seria realizada:

    <project name="myProject" default="build" basedir=".">
        <description>
            My Project's Description
        </description>

        <property name="build" location="build" />
    </project>

Certo, o nome da propriedade é build e a localização do diretório tem o mesmo nome, build.

Depois eu já defini as duas primeiras tasks: init e clean:

    <project name="myProject" default="build" basedir=".">
        <description>
            My Project's Description
        </description>

        <property name="build" location="build" />

        <target name="init">
            <mkdir dir="${build}" />
        </target>

        <target name="clean">
            <delete dir="${build}" />
        </target>
    </project>

Nada muito complexo até agora. Claro que escrever desta maneira, com XML, é bem mais trabalhoso que um um shell script, mas de qualquer forma a leitura não não fica prejudicada. Uma coisa que eu percebi logo no começo foi que eu precisava manter o diretório build vazio, ou inexistente, para que um deploy não levasse arquivos de um deploy anterior. Então eu precisava executar a task clean antes de executar a init, e para isso bastou adicionar a propriedade depends na task init:

    <target name="init" depends="clean">
        <mkdir dir="${build}" />
    </target>

Com isso eu já conseguia chamar pelo terminal as tasks init e clean:

    ant init
    ant clean

Se chamar apenas ant um erro acontece pois em project foi definido que a task padrão é a build e essa task ainda não existe.

Bem, o próximo passo foi rodar os testes unitários. O projeto é em PHP e estou usando o PHPUnit. Como já tenho um phpunit.xml na raíz do projeto, basta executar phpunit no terminal e os testes são executados. Pesquisei na documentação do Ant e vi que para executar um comando é necessário usar o exec, então criei uma task para isso:

    <target name="tests">
        <exec executable="phpunit" failonerror="true" />
    </target>

Eu instalei o PHPUnit via PEAR, então ele está na PATH do meu usuário. Eu também poderia executar o PHPUnit instalado via composer. Uma opção bacana que eu usei foi a failonerror que faz com que o Ant pare os processos caso o PHPUnit dê algum erro. Isso é bom para o caso de eu colocar a task tests como uma dependência de outra task, assim essa task não executaria por conta de um erro nos testes unitários.

O próxima passo, enfim, foi construir a task build. Essa task é responsável pela maior parte do trabalho (passos 2, 3, 4 e 5 da lista), então ela ficou um pouco maior do que as outras tasks:

    <target name="build" depends="init,tests">
        <!-- Copying files -->
        <copy todir="${build}/deploy/application">
            <fileset dir="application">
                <exclude name="conf/config.php" />
                <exclude name="conf/database.php" />
                <exclude name="cache/" />
            </fileset>
        </copy>

        <!-- Copying JS's and CSS's to timestamped new dir -->
        <copy todir="${build}/deploy/assets_${DSTAMP}${TSTAMP}">
            <fileset dir="assets" />
        </copy>

        <!-- Renaming assets location in main template -->
        <replace file="${build}/deploy/application/views/template.php"
            token="/assets/" value="/assets_${DSTAMP}${TSTAMP}/" />
    </target>

Aí estão os 4 passos! A cópia dos arquivos, ignorando alguns arquivos e diretórios, a cópia dos assets para um diretório com timestamp e a alteração do arquivo de template para usar os novos assets.

Veja que eu coloquei a task build como dependente da init e da tests, ou seja, se algum teste falhar, o build não será feito.

Neste ponto eu já conseguia fazer o build para gerar um novo entregável usando o comando:

    ant build

Agora só faltava a task deploy:

    <target name="deploy" depends="build">
        <!-- Deploy to live! -->
        <scp todir="deployer@server:/path/to/application" keyfile="${user.home}/.ssh/id_rsa" trust="true">
            <fileset dir="${build}/deploy" />
        </scp>
    </target>

Agora usei o scp, que funciona como o comando scp mesmo. Repare que eu coloquei a task build como uma dependência para deploy, pois o deploy só pode ser feito tendo um entregável pronto.

Com o arquivo pronto passei a fazer deploys em menos de 3 minutos e sem interação humana, basta fazer um ant deploy e ele roda tudo o que é necessário para colocar a aplicação no ar. Claro que a construção do build.xml foi baseada em estudos da documentação do Ant e em algumas tentativas e erros e levou algumas horas para ser concluída, mas logo logo eu recupero esse tempo graças a automação feita ;)

Conclusão

O Apache Ant é uma ótima ferramenta para automação de tarefas e para fazer o build automático de uma aplicação. Sua integração com o Jenkins é comum e até incentivada, então um bom próximo passo seria a automação do build e do deploy via Jenkins.

É claro que o Ant também tem seus problemas e existem outras ferramentas similares, uma delas é o Phing, que é derivado do Ant, mas escrito em PHP.

Eu ainda tenho outras partes do deploy para automatizar, mas esse começo já ajuda bastante. Por isso vou continuar estudando o Ant e o que mais ele pode fazer, principalmente em conjunto com o Jenkins.

InFog


Evaldo Junior

Desenvolvedor web, palestrante, escritor e usuário e contribuidor do Software Livre.

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